terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

SOU FELIZ

Deus é assunto delicado de pensar, faz
conta um ovo: se apertarmos com força
parte-se, se não seguramos bem cai.
(Dito do avô Celestiano,reiventando
um velho provérbio macua)


Sou feliz só por preguiça.A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença:é preciso entrar e sair dela, afastar o que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
-Levanta ,ó dono das preguiças.
-Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
-Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E,afora isso, eu só presto para viver....
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
-Você Zeca Perpétuo, até parece mulher...
-Mulher,eu?
-Sim mulher é que senta em esteira. Você é o único homemque eu vi sentar em esteira.-Que -Quer vizinha? Cadeira não dá geito para dormir.
Ela se afasta, pesada como um pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão míudo como eu.Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
-Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
-A vida Dona Luarmina? A vida é tão simples que ningúem a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...
Além disso,pensar traz muita pedra e pouco caminho.Por isso eu, reformado do mar o que me resta fazer?Dispensado de pescar ,me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga minha Dona: qual a palavra para dizer futuro?
Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver.Então eu me suficiento do actual presente.E basta.

Mia Couto in Mar me Quer

3 comentários:

  1. Alex
    Mia Couto é especial. Porém não devemos ser felizes só por preguiça. A felicidade é uma obrigação do ser humano face a um mundo onde o sofrimento é uma constante e onde não viver em ambiente de guerra e de catástrofes naturais e ter um tecto, pão e mesa são autênticos privilégios.
    A felicidade plena, quando acontece, são apenas momentos. Mas há um bem-estar interior que aprendemos a cultivar com o tempo e que provém duma postura focalizada na ajuda ao próximo, na tranquilidade e na humildade que são muito gratificantes e duradouros.
    Porque nós viemos ao mundo para sofrer e para irmos perdendo aqueles que amamos, devemos valorizar o que ainda temos e o que podemos conseguir sem competitividades doentias nem motivações de vaidades inúteis.


    Beijos

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  2. Interessante texto. Bela partilha! :) Boa semana.

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